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SOU RUIM E AINDA ME AMAS

Martha F Bueno | Meu Lado Literário | | 22 de Setembro de 2021 às 20:49 hs

SOU RUIM E AINDA ME AMASDesigned by Freepik

Estava diante do imenso verde desbotado do cerrado. Não havia pertubação em meu fluxo de pensamento. Senti todas as angustias de uma vida urbana se dissipando naquele momento. Um lugar alto, onde eu estava, sentada no chão feito índio. Um belo morro da bela Minas Gerais.

Ali permaneci por um bom tempo, como se estivesse de boas em casa. O mato não incomodava, e já não via a terra como algo sujo. Senti como que sentada em um lugar mais limpo que qualquer casa. A sensação era tão boa que resolvi questionar sobre muitas coisas, por influência da solitude que me envolvera. Fiz uso daquele instante para uma profunda reflexão, visto que seria um desperdício não usufruir tal envolvente atmosfera.

Deixei-me, então, fluir em meus pensamentos. E foi quando exprimi em sussurros que, lançados ao vento, deram formas a perguntas, dúvidas que saíram de um longo silêncio, estavam encobetas até aquele momento.

Por que somos tão individuais se não suportamos a solidão?

A questão surgiu sob influência de um sentimento de não estar só naquele lugar. Ou o de que eu nunca estivera, embora em muitas situações deixei-me levar pela ilusão da solidão. 

Mesmo sendo o único ser com capacidade cognitiva e linguística naquele ambiente, sentia que alguém conversava comigo através da natureza que me rodeava. Não como quando conversamos com nós mesmos. Era uma conversa esclarecedora. Dúvidas que, de forma alguma, eu entenderia por conta própria. As respostas vinham à mente, e eram de tamanha sabedoria! E um sentimento me cingia calorosamente. Ali, meu coração enchera-se de uma paz e um amor, que não cabem em palavras para que eu possa explicar. 

_ Por que o individualismo nos consome?– perguntei.

_ Porque só o que vê e o que toca é o que te convence.– respondeu a voz estranha em minha cabeça, porém, branda e acalentadora. 

É isso! Não somos capazes de ir além do que se materializa diante de nós, ou, do que se concretiza dentro de nós. Por isso é tão difícil se colocar no lugar do outro! Somos limitados! Demais! Sentimos e sofremos somente por nós mesmos. Não sentimos e sofremos pelo outro, o que achamos que sentimos é mera ilusão. Pois, para sentir o que o outro sente, carecemos de referências. E quem dispõe as referências, se não nós mesmos? E mesmo que obtenhamos a habilidade de compreender os demais, tal perceção seria deturpada por essa limitação de ver e sentir, e tudo assimilar, no plano do EGO. Colocar-se no lugar de outrem, não sendo eu mesma, é uma habilidade complexa, cujo instrumento indispensável é a transcendência. Exercer tal habilidade por conta própria é sujeitar-se às interferências do EGO, que converte o ato de compaixão e altruísmo, em autossuficiência e soberba. Foi e é tão difícil reconhecer isso: que não sou a pessoa bondosa que pensava ser.

Discerni que, o que me fizera transcender em minha meditação, naquele dia sobre o morro mineiro, fora influência de certo ensino, composto de palavras completas e inexoráveis, que enconraja o ato de se esvaziar. A plenitude e a revelação dessas palavras é intangível se for somente pela compreensão ao ser humano. São enunciados que excedem nosso entendimento. Porém, Aquele que as inspirou é quem transcende, pois nEle tudo subsiste. Se é da vontade dEle nos munir com discernimento, assim Ele fará. Ainda mais se pedirmos! Se hoje sou capaz de me colocar no lugar do outro, exercendo a verdadeira compaixão, certamente não provém de mim. De nada tenho mérito sobre essa habilidade. É um dom! Ou seja, um presente dado por Deus.

Que eu me lembre, foram raras as vezes que fui capaz de, verdadeiramente, calçar os pés que não fossem os meus. Costumeiramente, não há trancedência, se não apenas uma tentativa de assimilar os sentimentos e sofrimentos de alguém com base nos meus. Olhando só para mim, sem se quer compreender de fato o outro, e ainda me sobressaio como bondosa e generosa. Eu sou ruim! Mas não me odeio por isso. Nem devo! No entanto, me arrependo, pois minha consciência acusa, permitindo, assim, que eu busque sempre pela fonte que transcende o dom virtuoso de compadecer. 

Por que haveria de me odiar, quando Aquele que é a fonte de amor puro e misericórdia, incondicionalmente me ama? E por que eu deixaria de exercer o privilégio de me condoer pelo outro, sabendo que O Grande Eu Sou me incluiu nesse amor indescritível, o qual O levou a se fazer homem, a fim de morrer a minha morte, pagando um alto preço para que eu viva a sua vida, por meio do poder de sua ressurreição? E mais, sendo eu ainda tão podre por dentro?

Nossa limitação é tão escancarada, que para sentirmos alívio, nos condiconamos a um estado deplorável que chegamos até a comprar nossos erros com os de outros, simplesmente para nos sentirmos bem. Por vezes procurei saber de erros que fossem piores que os meus, para que eu me sentisse inocente. Ou, procurava a origem dos meus erros, a fim de aliviar minha culpa, direcionando-a para outros. Mas, desde que aquela voz estranha, porém, doce e calorosa, pasou a ressoar em meus pensamento, pude converter meus maus procedimentos. 

_ Tire, primeiro, a trave de seus olhos! Não há um justo se quer. Não se engane! 

Nisso, recordo-me olhar para o imenso Cerrado e começar a chorar. Chorava copiosamente, arrependida pelas milhares de vezes que pensei só em mim mesmo. Ainda hoje, aflijo-me ao perceber minha velha conduta tomando forma novamente, porém, lembro-me da voz dizer: tende bom ânimo, Eu venci o mundo! E Ele venceu para que eu, você, e todos que nEle crer, buscando-o de todo coração, encontre paz em abundância, e a certeza de que um dia terei um coração verdadeiramente compassivo.

Aaaaah! Que saudade tenho de admirar cenário do Cerrado, por de cima daquele morro, e dali ouvir claramente a voz de Deus sussurrando como vento em meus ouvidos. Apesar de ter encarado o medo durante minha tentiva de subir aquele morro, a satisfação fora incrivelmente maior, assim que passei a sentir o amor indescritível de Deus, do qual me preencheu sem deixar um espaço vazio. Voltar ali, agora, seria como voltar para minha casa. Lá eu renasci! E é a mais pura verdade! Pois o perfeito amor de Deus lança fora todo medo.

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