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O QUE SE PASSA DENTRO DE MIM

Martha F Bueno | Identifique-se | | 29 de Novembro de 2021 às 09:29 hs

O QUE SE PASSA DENTRO DE MIMDesigned by FreePik

Não sei se será capaz de compreender o que se passa no meu interior.

Sei que não sou única no quesito "mentes complexas e transtornadas". Esse texto será um breve relato do dia de hoje, 11 de setembro do ano mais estranho que já vivi, 2020.

A narrativa será sobre sons. A respeito dos estímulos sonoros que diariamente preciso assimilar, ou sendo mais realista, que sou obrigada a assimilar. Captar involuntariamente sons, que melhores definidos seriam se eu os chamassem de ruídos, enquanto enfrento outros turbilhões de estímulos interiores, como dores nas costas, calafrios, palpitações no coração, dores de cabeça, dores no corpo todo etc.

Nesse exato momento, enquanto escrevo, eu deveria me ater apenas ao texto. Bem, é o que pessoas que se consideram normais dizem. No entanto, sons de carros e motos; de tacos batendo em bolas de golfes; maritacas vocalizando seus sons ‘nada estridentes’; o mesmo cachorro de sempre latindo, mas latindo com força e com a mesma frequência sonora; novamente, motos, e como sempre forçando o escapamento para emitir aqueles barulhos ensurdecedores; pessoas falando alto na rua, como se fossem os donos dela; taco, de novo, dando com tudo na bola dura de golfe, que faz barulhos agudos que invadem os profundos orifícios de meus ouvidos, dando estalos horríveis em meus tímpanos; vizinhos, que logo de manhã, não perdoaram ouvidos alheios por horas com parafusadeiras e martelos. Comercios fechando suas portas de aço com tudo, até bater no chão, como se fosse para emperrar o portão no concreto... o elevador do prédio fazendo sons semelhantes aos zumbidos que ouvimos quando cai a pressão. É o som de vídeos com risadas altas, vindo de celulares... e risadas vindas da rua.

Não entenderam até agora?

Essa é uma luta diária que enfreto para escrever um texto, ler, desenhar, costurar, ou qualquer outra coisa! E nesse exato momento, estão me rodeando, invandindo meus ouvindos indecentemente de tão crueis que me parecem. Mesmo com meu corpo estremecendo com todos esses estímulos, e meus nervos estando à flor da pele... eu simplesmente não consigo ignorá-los! Seja assistindo à TV, esses barulhos sugam a minha atenção como dragas, mesmo que o programa na TV esteja super interessante! 

Apelei para os tampões de ouvido. Mas que ótimo! Eles ferem meus ouvidos, além de causar coceiras incessantes, como quando o nariz coça em reação aérgica à poeira (quem tem rinite entenderá).

Nada disso é fácil!

Não é que as pessoas, os animais, e os demais relatados acima, são os culpados por meu sofrimento... uma coisa é fato! Eu amo sons! Amo poder ouvir tudo. Mas ter essa hipersensibilidade auditiva, que é o que dizem que tenho, geram transtornos que raramente alguém a minha volta compreenderá. Essa hipersensibilidade que causa irritação, vem de mim, sim! Mas, entendam, não está sob meu controle também! E você entenderá... espero.

Escrever esse texto, não é só um pedido de compreensão. Já que é impossível pedir sintam meu sofrimento para que compreendam. É desabafo, como também uma exposição a fim de que outros, identificados com minha situação, da mesma maneira possam se manifestar... quem sabe assim, ajudarmos uns aos outros, com métodos de superação, ou de amenização do problema! Se possível...

Nesse exato momento, estou me irritando com os simples sons de mosquitos se debatendo em minhas lâmpadas da sala. Frescura? Estressada? Pessoa nervosa? Pessoa enjoada?

É o que costumei ouvir a vida toda, e ainda ouço!

Para exemplificar, se é que é possível fazer alguém compreender mesmo com exemplos, farei uso de analogias.

Imagine que esteja em uma festa (ou lembre-se de alguma vez que tenha ido a uma ,e passado tenha por isso). O som está alto, e você quer conversar. O som não para, e você luta para exercer sua interação social. De repente, o som diminui, e você sente um alívio.

_ Nossa, agora sim dá para conversar.

E o som volta, e pior... a pausa do DJ era para mudar o gênero musical... para FUNK! Com suas batidas repetitivas, graves, com vozes agudas cantando sabe-se lá o quê, e você se entrega aos nervos, e desiste!

_ Ow... bora conversar lá fora? Aqui está impossível!

É exatamente isso que se passa comigo.

Mas, na situação apresentada no análogo, trata-se de um momento! Não se compara a situação rotineira, e que ainda por cima, ainda não se encontra ‘refúgio’, não aqui em São Paulo. Então, ouvia e ouço:

_ Ah, coloca o tampão, Martha. Coloca o Headphone junto, e coloca uma música relaxante.

_ Ou tenta dormir...

_ Toma um chá relaxante...

_ Medita e faça exercício de respiração...

Aaah.... como é fácil falar!

Tão fácil para quem não tem ideia do que acontece dentro de mim. Tão fácil, que no fim, para essas pessoas, sou apenas alguém chata, irritada, estressada, que desconta sua furia em quem estiver por perto, que emburra fácil, ou seja, uma entojada.

Aaaah! Como eu queria superar isso!
Não, não é fácil!

Sinto que a qualquer momento posso infartar ou sofrer um AVC, do tamanho sofrimento em que tantos sons, ou melhor, barulhos acumulados invadem meu processamento cognitivo, causando estímulos simultâneos! Melhor forma é relacionar essa ocorrência com pani no sistema. Não pedem licença, simplesmente entram e não se definem, são barulhos, barulhos frequentes, sem pausa! Uma muvuca! Não sei dizer “não” para esses sons, e nem como fechar a porta na cara deles! Eles invadem e fazem estragos, e o pior de tudo nessa batalha, é ser responsabilizada pelo meu próprio sofrimento, que esses tais sons/barulhos causam a mim!

Não! Não sofro de TEA (Transtorno do Espectro Autista). A neuropsicóloga que me acompanha confirmou que não tem possibilidades de eu sofrer desse transtorno. Sim, sofro de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção) e TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada). Mas para muitos, isso é só frescura... pecado acumulado... algo que não entreguei pra Deus e quero estar no controle. Deus que me livre! Tire esse controle de mim, amém! 

Já quis sumir!
Porque... se não consigo entregar para Deus... e se não consigo lidar com isso há 31 anos, mesmo correndo atrás de tratamento, mesmo fazendo de tudo que me é possível... então... qual o motivo de eu continuar? Se dizem que o exemplo que dou é a de alguém que não tem fé o suficiente... que não entrega o fardo para Deus... que não tem buscado a Deus. É assim, definem por mim!

Claro! Sei que não devo esperar das pessoas reconhecimento e compreensão... sei que Deus é o único que conhece meu coração, e sabe o quanto eu O busco, o quanto eu clamo a Ele, dia após dia, pedindo socorro... paz.

Não espero mais das pessoas... não quero compreensão de ninguém. Mas entendam! Há outros como eu. Outros que esperam de você, que estão esperando a sua compreensão. Outros que, se sentem abandonadas e julgados por pessoas que não se dão o trabalho de entender que há um sofrimento incontrolável que se manifesta dentro deles, dentro de pessoas como eu.

Um pequeno gesto de se colocar no lugar deles, de ouvi-los... de oferecer apoio, podem, sim, amenizar sofrimentos. Agradeço que tenha lido até aqui. E com certeza ficarei ainda mais grata, caso se dispor a compreender meu sofrimento, evitando julgamentos sobre mim, sem se quer saber pelo que passo. E o mesmo, fazer por quem lida com o mesmo problema.

E espero, que muitos como eu, possam encontrar refúgio, descanso, em ombros amigos, que zelam por meio da graça e misericórdia de Deus, que nos chama para ser bênção uns para com os outros.

É fácil julgar e definir as pessoas! É para os fortes, parar, ouvir, discernir, e se condoer pelo próximo. Eu mesma, luto diariamente para não ser apenas mais uma que julga e sai definindo pessoas, como se eu fosse onisciente e tivesse tal autoridade. O que é impossível de acontecer algum dia.

Então, fica aqui meus relatos para os que se identificam, e para os que estão dispostos a se colocar no lugar do próximo, ajudando-os de alguma forma. Se esses relatos fizeram você se lembrar de alguém, então, aproveite para entrar em contato com essa pessoa. Buscando ouvir e entender mais sobre suas situações e batalhas. Você, com certeza, será uma bênçãode Deus na vida dessa pessoa! 

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