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BEM PÚBLICO EM CHAMAS

Martha F Bueno | Meu Lado Literário | | 22 de Setembro de 2021 às 19:44 hs

BEM PÚBLICO EM CHAMASDesigned by FreePik

Diante de um transporte público, um ônibus azul marinho, estava uma senhora observando o movimento que tomava forma de caos. O tal ônibus, que fora aterrorizantemente esvaziado por homens encapuzados, sem camisas, suados pela euforia, estava prestes a tomar forma de pó.

Foi quando, de um daqueles homens, uma garrafa de vidro transparente de cor verde, na qual enxergava-se perfeitamente estar meio cheia de um liquido acrômico que não se sobrepunhava do verde que tingia o recipiente, tal que fora lançado, juntamente com um pedaço de pano que flamejava em chamas adentrando sua boca. Logo se ouviu um estrondo em que a espectadora, antes imóvel e perplexa, tivera seu corpo lançado por longos passos o mais distante possível. Fora um impulso defensivo, de um susto inesperado, jamais pensara que aqueles rapazes fariam uma barbaridade dessas.

Para piorar seu temor e indignação, presenciara uma cena canibalesca, na qual ‘os meninos secretos’ pulavam e gritavam em círculos, tendo o ônibus público em chamas no centro da roda formada por corpos em movimentos bruscos como de orangotangos se debatendo por todos os lados. Era como se estivessem realizando um ritual de sacrifício em volta de uma grande fogueira, onde o bode seria imolado. 

Já tomara a noite sua posição, e ainda estava aquela senhora ali, paralisada a observar inusitada e execrável cena. Ela nada tinha com aquilo. Não entendia a motivação para tal ação, que já fizera brotar em seus pensamentos sentimentos de desaprovação. E simplesmente, sem entender, ficou ali assistindo ao truculento espetáculo.

Diante de seus olhos uma cena incomum, e para além de comum, um episódio estapafúrdico, um tanto desrespeitoso, que naquela senhora, que ainda bem jovem decidira viver e conhecer apenas o mundo civilizado, passaria a formular indagações acerca da vida em seu todo. Indagações que jamais se calariam, e mudariam sua percepção sobre tudo e todos, de maneira cabal!

O fogo consumia o bem público de cor azul marinho. Ainda era possível identificar a cor. A senhora se pôs na ponta do pé, curiosa quando ao transporte, vítima da truculência de homens não identificados. Ela podia ver acender, como que um farol em alto mar, a iluminar em derredor. Naquele momento em que parou para observar, não parecia que os assentos eram consumidos pela chama, ainda que essa aparentava se sentar sobre os bancos.

E atentamente, aquela senhora observava o fogo exercer sua função. Na medida em que as chamas se alastravam pelo interior do transporte, estrondos se repentinos dos tipos que se for pego de surpresa, é capaz de colocar pessoas de penas pro ar. Enquanto ocorriam os estouros, brilhos chamuscavam como os de fogos de artifícios.

E logo o fogo dominou sua vítima. Os assentos já não se definiam. Degradaram-se em instantes, que mesmo a espectadora assídua, a qual mal piscara os olhos enquanto fitava o evento, percebera o início da deformação de uma estrutura tão bem edificada. As luminárias por de dentro do automóvel começaram a pipocar feito milhos em óleo quente; o que antes definido em formas de um grande veículo, agora, sem cor, pretejado, suas janelas arrebentavam-se com o forte calor das chamas, espalhando estilhaços que piruetavam no ar feito purpurinas, por causa do brilho da luz que o fogaréu emitiu e rebateu por entre as partículas de vidros, causando tal efeito até que encantador... apesar de sua procedência.

Perante a ocorrência, já ensandecida pela repulsa que em cada processo evoluíra no seu íntimo, a mulher, por um instante, inclinou sua cabeça, levando a mão direita a sustentar os seios de seu rosto. Balançava a cabeça de um lado para o outro, como quem, se tivesse uma vassoura em mãos, partiria para o ataque.

Mas seu comportamento fora diferente. Ergueu o rosto, onde fora percebidas lágrimas a se formarem. Essas eram fartas de significado. O que era abominação, tornou-se pranto de um doer na alma. Sentimentos que se conturbavam! E o único enunciado formulado por meio de uma indagação naquele momento, fora em relação ao ‘desprocesso’ do processo. Única assimilação que seu cérebro conseguira elaborar.

_ Revolução? Rebelião? Como podem chamar isso de ‘luta’ pelos direitos ou por mudanças socais? E tem gente que ainda acredita que o BigBang e seu suposto estrago formara a Terra e a humanidade. É isso... demorou, mas a síndrome de Robin Wood fora bem implantada. Está aí... diante de meus olhos, para virar causo de reunião na cozinha. – Expirou forte com uma leve expressão de pesar.

_Aaaah...! Pobre iludidos! Não passam de marionetes que sofreram lavagem cerebral, sem nem mesmo perceberem. Hahahaha – sua risada soou ironicamente.

_E acham que estão revolucionando – pusera a mão direita na cara, como quem sente vergonha alheia – Mesma cilada que me ludibriou nos anos 70... e veja como estamos hoje.  

A mulher não assistira apenas à degradação do domínio público materialista, como também abrira os olhos da razão, enxergando degradação ainda pior, o bem público em chamas, o bem comum. O bem de todos estava em chamas, densas chamas. No coração daquela senhora, não havia esperança. Para ela, o bem comum estava prestes a entrar em extinção.

Inconformada, porque os revolucionários ainda se disfarçaram, escondendo seus rostos por meio de máscaras. Cada detalhe tornava sua compreensão sobre tal manifestação, mais e mais ilógica.

_ O que estão construindo com a destruição? Tem base um trem desse?! – bufou indignada, mas com medo de ser percebida e agredida. Coisa boa desse bando ela não esperava.

_São um bando de moleques, que bem o ensino médio ou a faculdade terminara! Queimar um ônibus por causa de 0,20, que saíra do bolso dos pais... e agora, mais essa, um ônibus a menos! – levantou o braço direito como um gesto de dúvida, direcionando sua mão virada, com a palma para cima, para o ônibus já acinzentado, como alguns que vemos abandonados no Ferro Velho.

_Espécie privilegiada como a nossa, aprimorada, requintada, com altas habilidades, sendo a mais intrigante das habilidades humanas, a edificação! Como podem destruir o que é de todos, dizendo que é por todos, sem nem perguntar a todos se é o que queria? Como chegaram à conclusão de que tinham direito de queimar o bem público? – questiona-se, revoltada.

_Um ato de injustiça para gerar justiça? Hahahahaha! É piada isso, né? – perguntou-se, observando os encapuzados depredando outros patrimônios públicos, como se fossem o carrinho de rolimã infantil deles, achando-se no direito de quebrar tudo aquilo na pirraça.

O fogo já estava com hora marcada para partir, e do ônibus restara apenas a carcaça. Até os pneus estavam derretidos sobre o asfalto. O grupo individualista, que pulavam e gritavam em volta, dispersaram-se, e assim como o fogo perdera a força, eles já não exaltavam aquele momento. Acabara, e a revolta que por um impulso semelhante à de um bipolar, começara, rapidamente também chegara ao fim num aspecto bem brochante. Restara ali somente cinzas. Indivíduos saiam em diferentes direções, ainda de rostos cobertos, sem a empolgação de antes. Saiam olhando de um lado para o outro, como se fossem outras pessoas. A moça, rindo com deboche, comenta consigo em voz alta, porém baixa:

_Se têm tanto medo de serem descobertos, é porque ‘coisa boa’ não estão fazendo. Para quer começar, se for para terminar desse jeito? – bate a mão sobre a coxa com força, expressando repúdio total!

_Sigam exemplos como o de Martin Luther King, que se apossou da coragem, e de cara limpa se expôs como um ato de manifestação, e para deixar para a história, declamou um discurso de arrepiar a alma! Professando palavras de edificação e ordem! Mas... naaaão! Eles querem ser heróis! Os Robin Woods do século 21! Só que... olha para isso... – aponta sua mão direita para todos que saiam a espreita, silenciosos e receosos.

_Não passam de uma construção do imaginário que implantaram neles... agem por medo! Querem o quê, se não aceitação?!

A mulher, já sem o que mais definir sobre aquele grupo e aquela situação, assim como o fogo cessara e não mais consumia, pois, tornara tudo em pó. Observando o vendo tropeçar entre a carcaça do bem público, seu cérebro inquietante, tornara a processar:

_Está aí... o resumo de tudo o que aconteceu aqui. – Disse referindo-se às cinzas que voavam, levadas pelo vento, para todas as direções, onde o vento queria ir, as cinzas iam com ele.

_Fizeram tudo isso, e qual é e será o resultado? – indaga balançando a cabeça como gesto de negação.

_Será como as cinzas deste troço, que antes era, por definição, um ônibus! Expostas ao vento, são levadas de um lado para o outro, sem rumo, sem uma definição! – Olha para o esqueleto do, então, transporte público com tristeza profunda.

_Voltam para suas casas, espalhando-se como cinzas ao vento... assistem no noticiário do dia seguinte que o governador tirara os 0,20 centavos para evitar atos de rebeldias... mas em seguida, roda a matéria sobre o aumento de outras taxas... e aí? – Pergunta-se, ainda na cena do crime, ainda de pé e ainda tentando entender o raciocínio dos indivíduos sem rostos.

_Nem mesmo têm coragem de definir seus rostos para o povo, pelo povo, o que de fato queriam com tudo isso? Adrenalina? Se foram, como se tivessem sido levados pelo vento, e tudo que restou foram cinzas! – levanta os ombros como gesto de ‘tanto faz’ ao falar que restara somente cinzas.

­­­_E esse é o resumo desse caos que causaram. Só restará cinzas! Não acrescentará nada para a História da humanidade, para os direitos humanos, para o trabalhador honesto. De tudo, restou somente essas cinzas, e um ônibus a menos, para a desgraça do trabalhador que depende do transporte público para trabalhar. ­– a mulher para, com os olhos fitados no resto de um ônibus, que nem saberia dizer se de fato era azul. Virou seu corpo em direção ao leste, e seguiu para sua morada. Enquanto andava, concluiu.

_Essas pessoas sugaram o bem público como dragas, apenas para obter um momento de poder... ou... elas realmente não compreendem a desconstrução social que têm causado. Nada se edifica na destruição! Então, qual era de fato suas intenções? – para diante de sua casa, um barracão, cujo telhado tinha uma lona como proteção provisória.

_Trabalho tanto para viver nessas condições... que esperança tenho, se meu povo desistiu de lutar, entregando-se à rebelião e destruição? – a mulher, com olhos lacrimejados, bruscamente muda sua expressão facial como se de si brotasse um ódio. – Não tenho que sofrer por causa de vagabundos!

Após proferir palavras de ódio, entrou em sua morada, como quem marchava, pronta para enfrentar uma batalha no dia seguinte. E diante de tudo que ocorrerá, nada bom fora construído. Nem mesmo na reflexão da mulher! No fim, a desesperança deu voz ao ódio que ganhara força diante de tanta indignação, de um ato que ganhou força por meio do ódio de muitos, misturado com descaso e ausência de amor.

De nada valeu! Nem mesmo a intensa reflexão da mulher, ajudara-a a se livrar dos sentimentos de ódio e resistência/violência que os sem rostos semearam. Ódio gera ódio? Violência gera violência? Não!

Para a moça, a desesperança fora maior que sua boa vontade em compreender. O medo a possuíra, fazendo-a culpar àqueles que destruíram o bem comum, odiando-os como se fossem eles os responsáveis por sua situação.

A verdade é que não devemos olhar para as circunstâncias!
Todos somos culpados, de alguma forma. Mas encontrar o culpado pela situação na qual nos encontramos, é como procurar uma agulha no palheiro. A indignação é plausível diante da injustiça, no entanto, nunca será se for constante.

A mudança só pode começar por nós mesmos. Não somos capazes de mudar o outro! Se nos deixarmos levar pelas circunstâncias, nada de bom será construído. Não há edificação em permanecer estagnado na lamentação e na murmuração!

Então, a mulher despertou.

_É... me voltar contra aquelas pessoas em nada acrescentará! A mudança começa em mim, o que esperar de quem só gera destruição? Se eu me deixar levar pelo mesmo pensamento... não só minha situação virará um caos, como também a minha alma será destruida por meio de uma inquietação destrutiva de rebeldia e ódio, que só faz como fez ontem... torna tudo em cinzas.

Ao proferir tais palavras de motivação para si mesmo, levantou-se, em seu horário de sempre 05:00 da manhã. Cheia de vitalidade no olhar, como quem está pronta para enfrentar as muralhas diárias. Três horas de ônibus até chegar na Fábrica em que trabalha. E Grata por ter encontrado paz ou invés de aflição e rancor, passou a viagem toda olhando a paisagem, do ônibus nosso de cada dia. E diante do cenário que rapidamente passava por seus olhos, agradeceu por mais um dia, Àquele que seu coração sonda e não permitiu e nem permitirá que vacile, diante de todas essas injustiças. 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

O ímpio, com a boca, destrói o próximo, mas os justos são libertados pelo conhecimento.” Provérbios 11:9

Porque a ira do louco o destrói, e o zelo do tolo o mata.” Jó 5:2

Melhor é a sabedoria do que as armas de guerra, mas um só pecador destrói muitas coisas boas.Eclesiastes 9:18

Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente feitos para presa e destruição, falando mal daquilo em que são ignorantes, na sua destruição também hão de ser destruídos, recebendo injustiça por salário da injustiça que praticam.” 2Pedro 2.12-13

Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.Romanos 3.10-18

Fonte: https://my.bible.com/pt/app

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